texto maria galindo

Apresentaçom
Só podo apresentar-me ante vós como umha impostora.
Umha impostora dentro de qualquer e de toda institucionalidade, umha impostora que cobra sentido, valor e força afora, fora da instituiçom, fora do sistema.Afora e nom adentro. Nom dentro da galeria, nom dentro da instituiçom, nom dentro da aceitaçom nom dentro da legitimaçom, nom dentro do sistema
Porque o sistema nom o é todo, nom é toda a realidade, nem sequer é umha parte significativa da realidade que nos arrodeia, envolve e desenvolve.
Afora é onde encontro e cobro sentido.
E ainda que pareza umha fantasia adolescente atrevo-me a dizer que: fora do sistema nom está o vazio, vazio com o que te ameaçam e te fam assustar, fora do sistema nom está a nada, ameaçam-nos com expulsar-nos de todas as listas a um vazio onde nada do que façamos, sintamos ou sonhemos conte, nem tenha valor algum. E é precissamente essa ameaça a que desafiamos colocando-nos fora e nom dentro. Porque senom é assim...Onde podemos entom ubicar todo aquilo que está fora do sistema de privilégios?,
Acaso o sistema já o tragou todo?
Acaso nom hai nada que se ubique fora do sistema de administraçom de violências e reputaçonsClaro que o hai, apostamos por ele e nele vivemos. Procuramo-lo em todo aquilo que desde o centro dos seus interesses o sistema qualifica como ineficiente, nom produtivo, demencial, desagradável, nom confortável, feio, cutre e perigoso.
Qualificaçons que adoptamos como próprias, medos e desejos que adoptamos como próprios e que nos som lentamente impostos e injectados por todos os nossos sentidos sem pausa nem oportunidade de reflexom ou distância. Narcotizados e narcotizadas por esses medos vivemos, conduzidos e conduzidas por esses medos, qualificaçons e manipulaçons vivemos.
Por isso decidimos instalar-nos, ubicar-nos e encontrar-nos afora e nom dentro.
Onde está esse afora?
O afora nom está à margem de, nem é a marginalidade da sociedade, tampouco é a marginalidade da história.O que se ubica fora do sistema, é todo aquilo que o sistema mesmo ainda nom pudo engolir nem tragar.
Nom som intermediária de ninguém, porque nem sequer podo intermediar as vozes das minhas irmás de Mujeres Creando, vozes complexas e directas que nom admitem intermediaçom nengumha e que nom desejam tampouco intermediaçom nengumha.
Falamos em primeira pessoa, nom somos intérpretes dos movimentos, nom somos portavozes das práticas de umha outra, nom falamos no nome de essa outra, essa outra sou eu mesma quando digo o que penso e o que sinto num cenário que nunca é emprestado.Nom digo o que a índia pensa
Nom digo o que pensa a puta
Nom digo o que pensa a bolhera
Cada umha consrui a sua linguagem e fala por si mesma.
Vozes directas, vozes expressivas, palavras carregadas de vida e vida carregada de palavras próprias nom emprestadas.
Nós estamos fora do sistema, instaladas no centro das sensibilidades da sociedade, centro desde o qual fazemo-nos sentir até o ponto que temos construido nom um castelo de naipes nem um espelhismo de revoluçom, mas um referente de transgressom e rebeldia para putas, para loucas, para índias, para raparigas, para jovens, para velhas que reneguem dos seus cansaços, para bolheras para umhas e outras rebeldes com quem construimos cumplicidades ininterrompidas.
Oferecemos como tesouro agachado e descoberto por nós as alianças insólitas e proibidas que temos construido.Oferecemos como originalidade inédita as alianças insólitas que pudemos construir péssie a quem péssie e desbaratando todos os guions para nos abraçar e nos comprometer a umha com a outra.
Oferecemos como proposta revolucionária as alianças insólitas que pudemos construir desbaratando com elas todos os guions atribuidos às nossas identidades fossilizadas e cousificadas, identidades convertidas em muros separadores de amores e de peles.
Estratégias sem patente
Estratégias alheias ao mundo da arte som as que temos,Estratégias analfabetas e nenguneadas som as que temos
Estratégias evidentes e alegais som as que temos,
Estratégias nossas e de centos de milhares mais
As nossas estratégias som filhas que aprenderom as suas habilidades de outras, somos nesse sentido recriadoras de estratégias.
As estratégias nas que nos inspiramos venhem e provenhem sem fim da rua, do mundo do afora.
Venhem das habibilidades de sobrevivência das mulheres nos seus confortáveis toldos de venda instalados no centro mesmo da sociedade, como umha grande barricada erguida apesar do sol e do frio, que impede o passo da globalizaçom.
Estratégias que estám vivas em Mercados que se convertem numha mescla de apropriaçom, ilusom e resistência que nem os Gigantes do mundo podem controlar, nem a polícia pode amedrentar, nem o Fundo Monetário Internacional quantificar. Mercado desobediente e falsificador de todo, desde computadoras até sapatos, mercado que é estratégia de sobrevivência, gargalhada ilegal.
Inspiram-nos as habilidades de homens e mulheres que com astúcia enganam as legalidades de fronteiras e Estados do Norte. Gentes que sabendo-se proibidas desenvolvem estratégias que conjuram o seu medo, a sua pobreça, a sua cor de pele.
Maria Galindo (trad. nómadas queer)..







































