Às vezes a vida deleita-nos com representantes políticos que superam a sua própria caricatura. Algo assim ocorreu na Corunha este 28 de junho. Quiçá movidos pola má consciência de 20 anos de vasquismo homófobo, quiçá enfadados com um movimento gai que nom dança ao som que eles tocam, a concelheira Silvia Longueira, e o concelheiro González Garcés, celebrarom pola sua conta, de costas ao seu sócio de governo e do movimento gai da cidade, o seu próprio dia do Orgulho Gai.
Para isso botarom mao do orçamento público, da associaçom de empressários da cidade velha e de um grupo de militantes do PSOE local denominado “7 Colores”. Assim aparecerom en rolda de imprensa, anunciando a ‘bombo y platillo’ que A Corunha celebraba oficialmente, por primeira vez, o dia do Orgulho Gai. E nós dizemos, quem decide o que é oficial ou nom? As instituiçons? Um partido político?
O certo é que a cidadania da Corunha leva já três anos celebrando oficialmente na cidade o 28 de junho cumha manifestaçom e com multidom de actos. O movimento corunhês de gais , lésbicas e transsexuais curtiu-se nos duros anos da etapa vazquista, e passa hoje por ser um dos mais dinámicos e com maior trabalho de redes em todo o país.
Mas essa realidade nom parecia existir para o senhor Garcés e a senhora Longueira. Ou mais bem, nom se queria ver. Tratava-se de montar a golpe de talonário um macro-evento e, de passo, silenciar e neutralizar as expressons dum movimento incómodo para o vasquismo, que aparecerá uns anos atrás fazendo ondear umha imensa bandeira gai no macro-mástil das Forças Armadas, reservado daquela à bandeira espanhola.
Desta maneira soubemos que González Gárces …ia ler este ano o “pregón” do Orgulho. “lo haré con toda naturalidad, entre la go-gó y la travesti”, declarou a um jornal local. E leu-no. Cumha hora de retrasso, isso sim, devido à falha de público. Entre as perlas do pregóm cabe destacar a declaraçom de que “a sociedade vai moi por detrás das leis”…, pobres cidadans (!), e de que el é partidário de mudar a nomenclatura: nada de Dia do Orgulho ou Dia da Libertaçom, mas “Dia da Dignidade”. Toda umha autoridade na matéria el, que nom distingue umha drag queen dum travesti ou dum transsexual. O senhor concelheiro finalizou o pregóm regalando bilhetes de autocarro para acudir ao desfile madrilenho. Isso sim, nem umha palavra das manifestaçons que iam ter lugar ao dia seguinte na Corunha e Compostela.
Tamém houvo nesta festa outra actuaçom estelar: a de Silvia Longueira, concelheira de Serviços Sociais . a concelheira prometeu um “educador” que vai estar presente nos Centros Cívicos, para aqueles moços que podam ter problemas e que tenham unha orientaçom sexual distinta da heterossexual. Muito di isto da conceiçom asistencial que tem o PSOE corunhês deste tipo de qüestons.
Haverá que dize-lhe à concelheira que a quem hai que educar é a aquelas pessoas com condutas homófobas. É especialmente urgente actuar sobre os adolescentes (o bulling homofóbico faz parte da vida diária dos institutos da cidade). E, desde logo, nom vai chegar cum educador. Silvia Longueira animou a asistir o sábado 28 ao despregue dumha enorme bandeira gai aos pés da Torre de Hércules, um acto que tivo pouco eco e menos asistência – ainda se cabe- que a leitura do pregóm do seu colega.
Todo isto é um triste (ou um divertido segundo se mire) exemplo do que um representante político nom deve fazer. Um político inteligente e honesto é aquel que sabe reconhecer o labor dos movimentos sociais e que nom tenta suplantá-los ou apropriar-se deles. O PSOE corunhês deveria ter um pouquinho de decoro. Nom queda nada bem o facto de que durante o reinado de Pacochet ninguém abrira a boca e agora, graças aos ventos de Zapatero, todo o mundo se arrime ao carrinho do voto rosa.
Na tarde do sábado 28 de junho as ruas compostelás acolhiam a popular manifestaçom de Aturuxo e as corunhesas a tradicional convocatória de Maribolheras Precárias, apoiada por perto de 30 colectivos de toda Galiza. A cidadania deu as costas aos actos dos senhores Garcés e Longueira para participar massivamente nos convocados polo próprio movimento. Porque os movimentos nom som flor dum dia, nem dumha rolda de imprensa, mas de todo um labor cotiám em rede. Umha das consignas mais coreadas polos centos de pessoas que percorrerom em manifestaçom as ruas da cidade herculina foi “passamos de Garcés, preferimos o francês”.
Pablo Andrade e Rubem Paradela, activistas queers. Revista TEMPOS NOVOS. Agosto 08.