Em 1980 Monique Wittg, a fundadora das Gouines Rouges (bolheras vermelhas), publicava The Straight mind do que publicamos este fragmento. A obra de Wittig é clave para poder entender o desenvolvimento das teorias e práticas queer.

A mente hetero
Os discursos que particularmente nos oprimem a todas nós, lésbicas, mulheres e homossexuais, som aqueles que dam por sentado que o que funda umha sociedade, qualquer sociedade, é a heterossexualidade. Esses discursos falam de nós e presumem de estar a dizer a verdade num terreno apolítico, como se houver algumha cousa significável capaz de escapar do político nesse momento histórico e como se, no que a nós concerne, puderam existir signos sem significado político. Esses discursos da heterossexualidade oprimem-nos no sentido de que nos impedem falar a menos que falemos nos seus termos. Todo o que os qüestiona é imediatamente desqüalificado como elemental. O nosso rechaço às interpretaçons totalizadoras da psicanálise fai-lhes dizer aos seus teóricos que desprezamos a dimensom simbólica. Esses discursos negam-nos toda a possibilidade de criar as nossas próprias categorías. Mas a sua acçom mais feroz é a tirania inflexível que exercem sobre o nosso ser mental e físico.
Quando usamos o mais que generalizador termo "ideologia" para designar a todos os discursos do grupo dominante, estamos a relegar esses discursos ao terreno das ideias irreais e esquecemos assi a violência material (física) que exercem directamente contra as pessoas oprimidas, umha violência que é produzida tanto polos discursos abstractos e “científicos”, como polos dos média.
Gostaria de insistir nesta opressom material que exercem os discursos sobre as pessoas.
Nom hai nada mais abstracto no poder que tenhem as ciencias e as teorias, que o poder de actuar em forma material e concreta sobre os nossos corpos e mentes, ainda quando o discurso que as produz seja abstracto… Todas as pessoas oprimidas conhecem esse poder e tiverom que enfrentar-se com el. É o que di: nom tes direito a falar porque o teu discurso nom é científico nem teórico, porque num nível errado de análise, estás a confundir os discursos com a realidade, o teu discurso é ingénuo, entendes mal tal ou qual ciencia, etc.
Se o discurso dos modernos sistemas teóricos exerce poder sobre nós, é porque trabalha com conceitos que nos tocam mui de perto. Apesar do surgimento histórico do movimento de lésbicas, do feminismo e do de libertaçom gai, cuja actuaçom sacudiu já as categorias filosóficas e políticas dos discursos de ciências sociais, essas categorias seguem a ser sem embargo utilizadas pola ciência contemporânea sem maior análise. Funcionam como conceitos primitivos dentro dum conglomerado de disciplinas, teorias e ideias actuais que chamarei a mente hetero.
Nesses conceitos incluo “mulher”, “homem”, “sexo”, “diferença” e toda a série de conceitos que levam a sua marca, entre eles “história”, “cultura” e o “real”. E se bem nos últimos anos aceitou-se que nom existe nada ao que se lhe poda chamar “natureça”, que todo é cultura, segue havendo dentro dessa cultura um núcleo de natureça que se resiste a todo exame, umha relaçom excluída do social na análise, umha relaçom cuja característica é ser ineludível na cultura assi como na natureça, e que é a relaçom heterossexual. A isto chamo a relaçom social obrigatória entre “homem” e “mulher”…Com esse carácter ineludível, como conhecimento, como princípio óbvio, como algo dado prévio a toda ciência, a mente hetero desenvolve umha interpretaçom totalizadora da história, da realidade social, da cultura, da linguagem e de todos os fenómenos subjectivos ao mesmo tempo. Apenas podo sublinhar o carácter opressor que reviste a mente hetero na sua tendência a universalizar imediatamente todo conceito que produz como lei geral e sobster que é aplicável a todas as sociedades, épocas e pessoas. Assi falam de intercâmbio de mulheres, da diferença entre os sexos, da ordem simbólica, do inconsciente, desejo, cultura, história, dando-lhe um significado absoluto a todos esses conceitos que em realidade som só categorias baseadas na heterossexualidade, ou seja no pensamento que produz a diferença entre os sexos como dogma político e filosófico.
A conseqüência desta tendência a universalizar todo é que a mente hetero nom pode conceber umha cultura, umha sociedade onde a heterossexualidade nom ordene nom só todas as relaçons humanas mas também a produçom de conceitos e mesmo os processos que escapam à consciência.
Rechaçar a obriga do coito e as instituiçons que essa obriga produciu como necessárias para a constituiçom dumha sociedade é simplesmente impossível para mente hetero, dado que fazé-lo significaria rechaçar a possibilidade de construir o outro e o rechaço da “ordem simbólica”, e também faria impossível a constituiçom de significados, sem o qual ninguém pode manter a sua coerência interna. Assi o lesbianismo, a homossexualidade e as sociedades que formamos nom podem ser pensadas nem faladas, ainda quando sempre existiram. Assi a mente hetero continua afirmando que o incesto, e nom a homossexualidade, é a sua principal proibiçom. Assi, quando é pensada pola mente hetero, a homossexualidade nom é outra cousa que outra heterossexualidade.
Si, a sociedade hetero basea-se na necessidade do diferente/outro em todo nível. Nom pode funcionar económica, simbólica, lingüística nem politicamente sem esse conceito. Essa necessidade do diferente/outro é ontológica para todo o conglomerado de ciências e disciplinas que eu chamo a mente hetero. Mas, que é o diferente/outro senóm o dominado? Porque a sociedade heterossexual nom só oprime a lésbicas e homossexuais mas e muitas e muitos diferentes/outras/outros; oprime a todas as mulheres e a muitas classes de homens, a todas aquelas pessoas que estám na posiçom de dominadas.
Construir umha diferença e controlá-la é um acto de poder, dado que é essencialmente um acto normativo. Todas as pessoas tratam de mostrar que a outra e o outro som diferentes. Mas nom todas tenhem êxito na sua empresa. Hai que ocupar umha posiçom social de poder para lográ-lo.
Por exemplo, o conceito da diferença entre os sexos constitui ontologicamente às mulheres como diferentes/outras. Os homens nom som diferentes, a gente branca nom é diferente, nem o som os amos. Mas a gente negra, assi como as escravas e os escravos, si o som. Essa característica ontológica da diferença entre os sexos afecta a todos os conceitos que fam parte do mesmo conglomerado. Mas para nós nom existe isso de ser-mulher ou ser-homem. “Homem” e “mulher” som conceitos políticos de oposiçom e a cópula que dialecticamente os une é, à vez, a que os fai desaparecer. É a luita de classes entre mulheres e homens a que vai fazer desaparecer a homens e mulheres (o mesmo sucede com todas as outras luitas de classes onde as categorias em oposiçom “reconciliam-se” mediante a luita cuja meta é fazé-las desaparecer). O conceito de diferença nom tem de por si nada de ontológico. É só o jeito que tenhem os amos de interpretar umha situaçom histórica de oposiçom. A funçom da diferença é enmascarar em todo nível os conflitos de interesses, incluidos os ideológicos.
Noutras palavras, para nós, isto significa que nom pode haver mulheres e homens e que, como classes e categorias de pensamento ou linguagem, devem desaparecer política, económica e ideologicamente. Se nós como lésbicas e vós como homossexuais seguimos falando-nos e pensando-nos como mulheres e como homens, estaremos preservando a heterossexualidade. Estou segura de que nengumha transformaçom política nem económica pode quitar-lhe o seu dramatismo a essas categorias da linguagem. Podemos redimir as palavras escrava ou escravo. Podemos redimir nigger, negress (termos degradantes para as pessoas negras). Em que difere mulher dessas palavras? A transformaçom das relaçons económicas nom abonda. Devemos produzir umha transformaçom política dos conceitos claves, quer dizer, dos conceitos que som estratégicos para nós. Poque hai outra ordem do material, a da linguagem, a linguagem vai-se elaborando em base a estes conceitos estratégicos. Está ao mesmo tempo profundamente conectado ao campo político, onde todo o que concerne à linguagem, à ciência ou ao pensamento, refere-se à pessoa como subjectividade e à sua relaçom com a sociedade. E nom podemos deixar isto dentro do poder da mente hetero, ou seja, do pensamento baseado na dominaçom.
...Rachamos o contracto heterossexual. Isto é o que as lésbicas estamos a dizer por todas partes, se nom com teorias, mediante práticas sociais, e ainda nom saberemos quais poderám ser as repercussons disto na cultura e na sociedade hetero. Alguém que se adique à antropologia poderá dizer-nos que deveremos aguardar cinqüenta anos. Si, se umha quer universalizar o funcionamento destas sociedades e fazer aparecer os seus rasgos invariantes.
Mentres, os conceitos hetero vam-se socavando. Que é a mulher? Pánico. Alarma geral para umha defessa activa. Francamente, é um problema que as lésbicas nom temos porque temos realizado umha mudança de perspectiva, e seria incorrecto dizer que as lésbicas relacionamo-nos, fazemos o amor ou vivemos com mulheres, porque o termo "mulher" tem sentido só nos sistemas económicos e de pensamento heterossexuais. As lésbicas nom somos mulheres (como nom o é tampouco nengumha mulher que nom esteja em relaçom de dependência pessoal com um homem)
(fragmento deThe Straight Mind, 1980, traduzido por Perralheiras Press)
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