Qualquer interessada nos textos para o debate apresentados por outros colectivos e movimentos como CGB, EHGAM, Panteras Paris, FAGC, Queer Ekintza, Antagonismo gay de Bologna, Queer For Peace, Facciamo Breccia, Panteras Rosa portugal, Guerrilla travolaka, ACT UP Paris…podedes solicitá-los escrevendo para o nosso email (dispomos de traduçons deles em várias línguas)

Talvez não saibamos o que somos, mas sim o que não queremos ser
Queeremos incentivar as vidas alternativas e os espaços autónomos. Apostamos num antagonismo global, que incentive uma multidão de subjectividades sexuais, irredutíveis, ingovernáveis. E é que a nossa diversidade radical não pode ser representada: fufas, putas, sadomasoquistas, pedófilas, michês, trans, butchs, sem papeis, oprimidas sem estado, bissexuais, utilizadoras de drogas, polissexuais, seropositivas, migrantes, mariconços, presas, precárias, pobres… Estamos nas margens e é partir daí que podemos criar alianças insólitas, inventar novas cartografias, experimentar novas dinâmicas mestiças.
Queeremos reinventar a nossa existência e fazê-lo com todas aquelas que lutam por um mundo em que todas possamos florescer, enfrentando as políticas neoliberais ultraconservadoras que precarizam as nossas vidas.
Não acreditamos na política de partidos: não nos representam.
Não acreditamos nas identidades nacionais hegemónicas que fabricam grandes muros de exclusão: todas somos clandestinas. Somos extrangéneros.
Revoltamo-nos contra o consumo. Não acreditamos no “valho o que compro”.
O nosso activismo não trata apenas da sexualidade: entendemos que há uma multiplicidade de lutas e que, na medida das nossas forças e possibilidades, é possível abordá-las de forma transversal.
Denunciamos a existência de uma Heterossexualidade Imperial
Afirmamos que não nos move apenas a luta contra a homofobia. Também existe a transfobia, a lesbofobia e outras formas de opressão. Opressões entrelaçadas, superpostas, opressões que mudam adquirindo sentido próprio. Parte dessas formas de fascismo estão produzidas por um terror ao incumprimento das normas de género; esse é o problema central: o regime que organiza e disciplina corpos, afectos e prazeres. Consideramos a heterossexualidade como um autêntico regime político com as suas leis próprias, as suas tecnologias binárias de género, as suas regulações e repressões. Todo um império de governo dos corpos que se reproduz a si próprio e que castiga quem não se submete a ele. Esta forma de Heterossexualidade Imperial que governa a vida e os corpos é, portanto, muito mais do que uma simples opção sexual, isso é o que desafiamos a partir de múltiplas posições e experiências.
Apesar de as reformas legais antidiscriminatórias serem importantes, estas não podem ser o eixo do movimento. Desconfiamos da igualdade que nos propõem porque se encontra limitada e amordaçada pelos significados de uma Heterossexualidade Imperial, que, repetimos, tem as suas leis próprias, à margem das estruturas jurídicas da forma-estado.
Que tipo de rede reivindicamos?
Partimos das margens, das periferias sexuais, de género, nacionais, económicas ou culturais. Recusamos integrarmo-nos como “movimento” na gestão das políticas “sociais” ou de “igualdade”. Não buscamos a interlocução com o poder nem com quem se congregam em torno dele: às avessas. Buscamos uma transformação radical das relações de poder. Para isso consideramos fundamental construir, aqui e agora, os nossos próprios espaços autónomos: linhas de fuga no império sexual. Espaços ocupados no sistema sexo-género. Subjectividades estranhas que provocam um curto-circuito nos significados binários.
Reivindicamos outras formas de fazer política por meio de um activismo que nos faça felizes, que dê sentido ao presente e que, aqui e agora, sirva para reinventar as nossas vidas. Reivindicamos a festa, a paródia, a acção directa. Apostamos em auto-gerir o nosso lazer, os nossos afectos, a nossa criatividade: essa é a melhor forma de demonstrar que o sexo, os corpos, os prazeres, ou inclusive o seu próprio significado e a relação entre eles, está permanentemente por inventar. Queeremos contribuir para tecer redes a partir de baixo, para criar comunidades ingovernáveis, para transgredir as barreiras entre identidades. Queeremos abrir a Caixa de Pandora: experimentar novas formas de viver, novos desejos. Seduz-nos a ideia de experimentar prazeres que ainda estão por imaginar.
Entendemos esta Rede como uma aposta nas sexualidades minorizadas, na diversidade radical das identidades sexuais, numa forma antagónica de entender e viver os géneros, numa práxis vital dirigida à reapropiação do próprio corpo e dos próprios desejos. Não buscamos construir uma supra-organização que se mova no terreno de jogo clássico do movimento LGBT. Formulamos uma Rede de troca e criação horizontal de conhecimentos, experiências e afeições.
Como proposta concreta, gostaríamos de formular a criação de um banco dinâmico de dados na Rede. Uma ferramenta diferente da actual Web que tome forma de auto-publicação (ao estilo dos IMCs), uma espécie de Indymedia Queer em que possam ser partilhadas novas práticas activistas, materiais gráficos, audiovisuais, textos, etc. Esta ferramenta poderia também servir para trabalhar propostas de campanhas ou acções globais e descentralizadas.
Galiza, 20 de Outubro de 2007










